
Desde os anos 30 e 50 que se esperava por uma final de Copa entre Brasil e Itália. E ela veio em 1970.
Desde os anos 50 e 60 que se espera por um confronto em Copas entre Brasil e Alemanha. E ele veio na final da Copa de 2002.
E talvez desde o início dos tempos que se espere por uma final de Copa entre Brasil e Argentina. 80 anos de Mundial para a tão esperada final acontecer em solo africano.
E foi, sem dúvida a maior final de Copa de todos os tempos. Cheia de alternativas. Mais uma prorrogação, a Argentina jogou dois tempos extras e uma decisão nos pênaltis, enquanto que o Brasil jogou quatro, com uma disputa de penais. Ou seja, a seleção canarinho jogou todos os jogos do mata-mata com prorrogação. Duas horas a mais em campo que o normal.
O excesso fez Elano e até o menino Marcello Borghí sentirem. O meia do Manchester City, com estiramento muscular na coxa esquerda, ficou de fora do jogo e o atacante do Newcastle, com dores nas costas foi poupado, ficou no banco e poderia ter jogado fora a chance de ser artilheiro de sua primeira Copa. Mas o destino se encarregou de escrever essa história de forma justa.
O jogo começou com ritmo alucinante, ambas as Seleções perdiam chances marcantes, até que aos 26 minutos, após Robinho perder boa chance no ataque, veio o contra-ataque argentino. A bola foi lançada por Heinze e após disputa de cabeça ela sobra pra Agüero que passa para Riquelme. Ronaldinho tenta, mas não consegue cortar e o meia argentino bate cruzado para abrir o marcador, contando com um deslize de Júlio César.
O primeiro tempo, a partir daí, correu morno até o final. A Argentina se fechou, abdicando do ataque, enquanto que o Brasil se perdeu em campo, sentindo o golpe.
O próximo bom ataque só aconteceu aos 8 minutos do segundo tempo e foi uma pressão da Argentina, justamente quando o Brasil ameaçava se soltar mais para buscar o empate.
A pressão culminou, aos 9 minutos da etapa complementar, no segundo gol
porteño. Riquelme cobrou escanteio e Agüero ampliou de cabeça, marcando seu nono gol no Mundial e se isolando mais ainda na artilharia. Parecia a sentança do jogo. "Impossível que "
Los Hermanos" possam ser alcançados no placar ou Agüero na artilharia", pensaria o torcedor brasileiro desanimado.
Pois foi depois desse gol que o Brasil se superou. Não se abateu como no gol de Riquelme e começou a ditar o ritmo da partida. "Deu pra sentir dentro de campo que eles se fechariam pra manter o placar, assim como fez a Espanha e a gente tentou se falar rapidamente logo que tomou o gol. O Lúcio gritou pra gente ir pra cima, que eles íam se fechar e que era pra gente pensar que estava 0x0. Não deu outra", informou Luís Fabiano na coletiva, após o jogo.
"A chance que o Lúcio perdeu logo em seguida e a forma como ele levantou e ao invés de lamentar, gritou mais pra gente que faltava pouco pra conseguirmos empatar, foi uma injeção de ânimo no time todo", acrescentou Kaká.
Logo após esse lance de Lúcio, Marcello Borghí entrou em campo no lugar de Robinho que não estava bem no jogo. "Ouvi o professor falando com o Jorginho que o Robinho era o que mais tinha sentido o placar e ele olhou pro banco. Certamente tentando escolher entre Nilmar, Pato e eu. Fiz um discreto sinal de positivo. Achei que ele nem iria cogitar me colocar, por causa das dores que eu tinha sentido nas costas desde a semifinal. Vi depois que ele chamou o Dr. Runco, cochicharam alguns segundos e em seguida me chamou". Acrescenta Marcello.
Nesse meio tempo, o Brasil atacava bem, mas deixava espaços para o contra-ataque argentino, até que numa escapada, Kaká e Luís fabiano tabelaram. Heinze dividiu duas ou três vezes, mas acabou permitindo a conclusão de Kaká para diminuir o prejuízo, aos 22 minutos.
A Argentina voltou a crescer e teve boas chances de matar o jogo, mas aos 33 minutos, Daniel Díaz tentou sair jogando e perdeu a bola para Marcello. Luís Fabiano pegou a sobra e bateu de fora da área para empatar.
Logo após o gol, quem sentiu foram os argentinos e o Brasil teve boas chances de matar o jogo no tempo normal, mas veio a prorrogação.
No tempo extra, aos 5 minutos, o Brasil praticamente garantiu o título. Júlio Baptista entrou no lugar de Josué e Daniel Alves no lugar de Marcelo Vieira. E foram os dois que fizeram a jogada para o outro atleta que saiu do banco fazer o gol da virada. Marcello invadiu a área, ameaçou ir na bola cruzada por Daniel, mas deixou ela passar até Baptista e se posicionou para esperar um possível rebote. Em vez de concluir, o meia da Roma surpreendeu os argentinos e soltou a bola para Marcello concluir de primeira para o gol.
Aos 3 minutos do segundo tempo extra, o grande responsável pela motivação do time foi recompensado. Na cobrança de escanteio pela esquerda, Lúcio dominou como centroavante e colocou com categoria no canto oposto do gol de Abbondanzieri.
Com 4x2 no placar parecia mais uma vez definida a fatura. Mas os deuses do futebol sempre aprontam alguma quando menos se espera e em Copa do Mundo mais uma vez se viu que tudo é possível.
3 minutos depois, Zanetti achou Messi na esquerda. Ele fez boa jogada e passou para Tévez, que tinha acabado de entrar no lugar de Agüero, diminuir.
Aos 12 minutos do tempo final, escanteio pela direita do ataque argentino e Cambiasso colocou na cabeça de Lavezzi. O atacante, que também tinha entrado há pouco, em lugar de Maxi Rodríguez, inacreditavekmente empata mais uma vez o jogo.
Mais uma certeza, estávamos indo pra disputa de pênaltis, certo? Errado, os deuses, aqueles, às vezes aprontam diversas vezes num jogo só.
Marcello visivelmente já estava voltando a sentir as costas, mas resistiu bravamente até também ser premiado.
Júlio Baptista ainda teve chances, mas desperdiçou duas oportunidades, até que aos 18 minutos da etapa complementar. Exatamente, aos 3 minutos de acréscimo, Baptista caiu pela direita e em vez de concluir, cruzou. Ronaldinho cabeceou, Pato Abbondanzieri salvou com os pés e a bola caprichosamente procurou Marcello na esquerda. "Nessa hora não pensei nas dores, não pensei na artilharia. Só pensei que era a chance de matar o jogo, de colaborar com os companheiros que guerrearam tanto durante o jogo. Pensei em meus pais, na minha família, nas pessoas que me ajudaram a chegar até aqui, tudo passou como um raio na memória em frações de segundos. Fechei o olho e chutei!", confessou.
O chute vai no meio do gol. Uma medalha no peito de Pato antes de morrer no fundo do gol.
O juiz inglês encerrou o jogo em seguida e o Brasil se sagrou hexacampeão do mundo. Argentina é vice pela terceira vez. Itália que ganhou da Inglaterra por 1x0, gol de Totti ficou pela segunda vez na terceira posição. Os ingleses ficaram em quarto também pela segunda vez. Em 1990, Itália e Inglaterra também decidiram o terceiro lugar e a Azurra também venceu, só que por 2x1.
Com o gol no finalzinho, Marcello empatou com Agüero na artilharia, ambos com 9 gols, mas uma ligeira vantagem para o brasileiro que jogou 22 minutos a menos que o argentino e ficou com a chuteira de ouro. Agüero fica com a chuteira de prata e o francês Trezeguet, com 6 gols, fica com a chuteira de bronze. Os demais premiados serão revelados em alguns minutos.
E o menino de Ponta Grossa ganhou o mundo mais cedo do que se esperava e o título vem coroar uma carreira meteórica e que muitos frutos pode dar ainda ao futebol brasileiro. Ele fica agora impedido de jogar o mundial sub 20, mas ainda tem alguma chance em olimpíadas e é quase certo que estará no mundial de 2014, no Brasil. Terá 23 anos e muito mais bagagem para brigar pelo hepta.
TABELÃOJogo: Brasil 2 x 2 Argentina (3x2 - prorrogação) (Copa do Mundo 2010 - Final - Jogo 64)
Local: Soccer City (Joanesburgo)
Árbitros: Howard Webb, auxiliado por Darren Cann e Michael Mullarkey (ING)
Público: 84.490Cartões: Amarelos: Lúcio, Daniel Alves, Robinho, Marcelo Vieira e Maicon pelo Brasil. Riquelme, Cambiasso, Maxi Rodríguez, Daniel Díaz e Heinze pela Argentina.
Gols: Primeiro Tempo: Riquelme (26).
Segundo Tempo: Agüero (54), Kaká (66) e Luís Fabiano (78).
Primeiro Tempo (Prorr.): Marcello Borghí (95).
Segundo Tempo (Prorr.): Lúcio (108), Tévez (111), Lavezzi (116) e Marcello Borghí (123).
Escalações: Argentina: Abbondanzieri; Demichelis [Burdisso], Daniel Díaz e Heinze; Javier Zanetti, Mascherano, Riquelme [Tévez], Cambiasso e Maxi Rodríguez [Lavezzi]; Messi e Agüero.
Brasil: Júlio César; Maicon, Lúcio, Juan e Marcelo Vieira [Daniel Alves]; Gilberto Silva, Josué [Júlio Baptista], Ronaldinho e Kaká; Robinho [Marcello Borghí] e Luís Fabiano.